É paradoxal dizer que possa existir uma ‘mídia’ no meio digital

Entrevista concedida à Revista IHU da Unisinos em 2012.

Link: http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=4523&secao=396

Na verdade, tudo o que existe e é visível no e através do computador é ou hardware ou software, afirma Cícero Inacio da Silva

Por: Graziela Wolfart e Thamiris Magalhães

“Chamar as representações, que agora são parecidas com as ‘antigas’ representações que tínhamos até então, faço alusão ao rádio e à televisão, é uma mera falta de capacidade, comum à humanidade, de criar uma linguagem própria à cultura do computador. Por isso, ela ainda imita os meios anteriores e tende a considerar o que é veiculado nesses meios como ‘mídia’, o que é um tremendo engano”, frisa o professor Cícero Inacio da Silva, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Segundo Cícero, o Facebook é uma rede que no início tinha uma forma bastante próxima das “repúblicas” de estudantes norte-americanos, que exigiam uma “triagem” e uma “validação” para aceitação de membros internos, no caso, os “amigos” ou a “fraternidade”. “Isso funcionou muito bem durante um tempo, até se tornar uma mídia de massa bastante homogênea e que tende a pasteurizar fatos e notícias”.

Cícero Inacio da Silva é graduado em Psicologia pela Faculdade Paulistana de Ciências e Letras, possui mestrado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP e doutorado em Comunicação e Semiótica pela mesma universidade. Tem pós-doutorado pela University of California, San Diego (UCSD).

Confira a entrevista.
IHU On-Line – Em primeiro lugar, o que o senhor entende por mídia digital?

Cícero Inacio da Silva – Particularmente, sigo uma noção bastante diferente da estabelecida no Brasil, por uma leitura que faz somente alusão às representações superficiais geradas por máquinas computacionais, geralmente visualizadas em “browsers” de internet, e que são normalmente pouco ligadas ao início da “cultura computacional”, vamos assim dizer. Penso que o digital diz mais respeito às materialidades dos processos computacionais que geraram e que fundam basicamente a nossa sociedade contemporânea mediada via o digital, ou seja, que é fundamentalmente ligada à própria história do computador como máquina cultural. Essa visão de mundo não é muito comum no Brasil e é bastante comum em países que tradicionalmente lidam com o computador de maneira mais dinâmica. Isso tem a ver talvez com o fato de que essas culturas tenham basicamente desenvolvido essa máquina que tem transformado a forma como vivemos e talvez por isso essas culturas tenham uma visão bastante diferente dessa mais “filosófica” que tende a interpretar o computador como uma máquina que só reproduz coisas, como a antiga televisão e o rádio.
O computador não é meramente uma máquina de “comunicar”

Partindo do ponto de vista de que o computador não é meramente uma máquina de “comunicar”, mas sim de ser capaz de antecipar processos e de inclusive proporcionar a existência de elementos até então humanamente impossíveis, tendo, então, a seguir uma análise que aponta que é paradoxal dizer que possa existir uma “mídia” no meio digital, tendo em vista que tudo o que existe e é visível no e através do computador é ou hardware ou software. Chamar as representações, que agora são parecidas com as “antigas” representações que tínhamos até então, faço alusão ao rádio e à televisão, é uma mera falta de capacidade, comum à humanidade, de criar uma linguagem própria à cultura do computador. Por isso, ela ainda imita os meios anteriores e tende a considerar o que é veiculado nesses meios como “mídia”, o que é um tremendo engano.
IHU On-Line – Qual a diferença entre mídia digital e rede social?

Cícero Inacio da Silva – Mídia digital dizia respeito a tudo o que antigamente era veiculado nos computadores com linguagem ou idêntica ou bastante similar à da televisão, do jornal, do cinema ou do rádio. Já rede social é uma utilização dos processos digitais para conexões entre sujeitos ligados a máquinas com processamento computacional (tablets, celulares e computadores), que permite o compartilhamento de informações em tempo real e também a modificação das informações por parte deste “conjunto” dinâmico de sujeitos conectados a essa “grande máquina universal”, que são as redes sociais.
IHU On-Line – Em que sentido o senhor afirma que “não existem mídias digitais, apenas softwares”?

Cícero Inacio da Silva – No sentido de que o que se vê em um computador não é uma “mídia”, mas sim o resultado de um processo computacional que “imita” as mídias anteriores. Nós só assistimos vídeos ao computador por não sabermos exatamente o que vamos produzir e então buscamos referências no passado, no vídeo cassete, no cinema, na televisão. O computador é capaz de produzir outras coisas, mas ainda estamos no início de um processo mais dinâmico de compreensão do que essa máquina faz. Por isso ainda somos tão ligados à imagem em movimento da maneira como ela era vista até os anos 1990. Como exemplo, gosto de citar os jogos e os livros que são lidos em “redes sociais” visualizáveis, que são como ambientes de jogos gráficos avançados, mas com a diferença de que neles centenas, senão milhares de pessoas, se encontram diariamente para “escrever” ou “ler” histórias em conjunto e desfrutar de um momento de compartilhamento de leituras e visões de mundo sobre determinados textos. Eu chamaria isso de “leitura social”. E isso é só um dos modelos que podemos pensar.
IHU On-Line – Quais os desafios para a área da comunicação e da sociologia em função dos avanços na área da comunicação digital?

Cícero Inacio da Silva – Creio que analisar o que é exatamente o computador. Ainda não temos a mínima ideia do que é essa máquina.
IHU On-Line – Qual sua opinião sobre o Facebook? Quais as possíveis críticas que o senhor faria a essa rede social que cresce tanto no Brasil?

Cícero Inacio da Silva – Não tenho nenhuma restrição particular ao Facebook. Eu, particularmente, tinha uma conta nessa rede, que desativei há alguns anos. Eu tendo a não gostar de coisas massivas, por isso me dou o direito de não comer no McDonalds, no Burger King e a não ter uma conta no Facebook.
IHU On-Line – Qual a especificidade do Twitter em relação ao Facebook, principalmente em relação à linguagem e aos tipos de conteúdos postados?

Cícero Inacio da Silva – São duas redes com objetivos distintos, que operam sob as mesmas bases. Em uma, você torna públicas questões pessoais ou mesmo comerciais em pequenos posts, que tendem a “imitar” a lógica do que antigamente se chamava “autenticidade”. Essa rede é o Twitter, que criou uma espécie de “fantasmagoria” do “autêntico” que se expande. Nessa rede, tudo parece sair no estilo #prontofalei, mas sabemos que quase todas as contas oficiais, tanto de autoridades como celebridades, são mantidas e atualizadas por “consultorias” especializadas em criar fatos ao “estilo #prontofalei”.
O Facebook

O Facebook, por outro lado, é uma rede que no início tinha uma forma bastante próxima das “repúblicas” de estudantes norte-americanos, que exigiam uma “triagem” e uma “validação” para aceitação de membros internos, no caso, os “amigos” ou a “fraternidade”. Isso funcionou muito bem durante um tempo, até se tornar uma mídia de massa bastante homogênea e que tende a pasteurizar fatos e notícias.
Mídias sociais

Se você analisar, as mídias sociais seguem a hegemonia dos grandes formatos de mídias massivas, mas com uma diferença: quem replica é você, eu e nossos vizinhos, e de graça, já que não ganhamos nada quando trabalhamos para o Facebook replicando ou “gostando” de um post. Por outro lado, essas redes tendem a aproximar as pessoas, colocar em contato pessoas que você não tinha mais acesso etc. Isso gera uma sensação de pertencimento e de “familiaridade” globais quase incomuns. Contudo, vale lembrar que toda “familiaridade”, segundo o próprio Freud, carrega em si um tremendo “terror” da não distinção entre o que é meu e o que é do “outro”. E isso talvez venha a criar no futuro toda uma geração que se negue a utilizar “redes socais” exatamente para não se deparar com esses “tantos familiares” que lhe causam mais ojeriza e terror do que propriamente uma sensação de pertencimento.

Projeto Veja.vis no Digital Humanities 2012

From veja.vis

Marcio Emilio dos Santos, pesquisador do Laboratório de Software Studies e eu tivemos paper aceito para o congresso Digital Humanities 2012 em Sheffield, na Inglaterra, com o paper “Analyzing big cultural data patterns in 4.000 covers of Veja Magazine”. A lista dos trabalhos aprovados pode ser acessada aqui:
http://www.shef.ac.uk/polopoly_fs/1.199297!/file/dhc-abstracts.pdf

Presidenta Dilma Rousseff assiste a trechos do filme EstereoEnsaios em Londres

A presidenta Dilma Rousseff assistiu a trechos do filme EstereoEnsaios durante a mostra Brazil at Heart na embaixada do Brasil em Londres. Além da projeção do filme, a Presidenta Dilma também foi apresentada ao projeto de Visualização Avançada da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP).

Brazilian President Dilma Rousseff opened the Brazil at Heart venue at the Brazilian Embassy in London during the London 2012 Olympics and was introduced to the Advanced Visualization Apps research group from RNP.